Tango: sentença e troco

Tempo de leitura: 3 minutos

Olá,

Hoje, trazemos um conto bem interessante do Edson Renel, leitor da cidade de São Paulo, que retrata, de forma bem humorada um encontro pouco convencional entre dois apaixonados pelo Tango.

Chão de ladrilho. Mesa de madeira. Chapéu acostado. Gravata folgada. Salão vazio. <Senhor, vai fechar a cozinha, quer fazer seu último pedido?> <Não sei pelo que me condena, mas me traga um trago!>

Vestido azul escuro. Ajustado. Longo pescoço com um ponto de luz. Lembrava a Serra do Rio do Rastro. Em noite de lua cheia. <Amigo, dois, por favor.> Não tinha nenhuma pista, mas chamou-a para dançar.

<Faz tempo que não danço…> Advertiu enquanto resignava-lhe a mão. Respondeu-a com um sorriso leviano. Reiterou o convite, com os dedos em riste, apoiando-a. Descruzou as pernas. Levantou. Calmamente. No último pedido, a vida é condescendente.

Tronco com tronco. Peso de um lado. Do outro. Enquanto o braço de um trata da cintura; o do outro, o ombro. Os outros tateam-se até às mãos. Formam um, como que andante no escuro.

Tango: sentença e troco

O ritmo, primeiro, marcado com o respiro. Olhos fechados. Quem guiava eram os ouvidos. Flexão leve no joelho. Empurra o chão. Impulso para o primeiro passo. Caminhada dramática pelo saguão. Sem pressa. O trago que espere na mesa.

Reconhecimento do espaço. Do outro. Do espaço do outro. Uma inversão na pisada. Troca de posição. Segue no salão. Música floreia. Gancho com a perna. Acaricia a pista com a ponta do sapato. Novo impulso. Nova evolução.

Ritmo acelera. Respiração. Trava de braços. Batida grave. Rodopio, com gravidade. Trava de perna. Gancho. Nota longa de grand finale. Perna como escorpião. Salto, como ferrão. Desarme lento. Terminando num abraço. Parou o tempo no saguão.

Abrem-se os olhos; os braços, não. Corpo quente e respiração. Troca de calor. Refrigeração. Aperta-se o outro contra si, em gratidão. Numa inquietante mirada, a sentença. Sorriso resoluto.

Oferece-a a mão. Segue acompanhado em direção à porta. Passando pela mesa. Freia, mantendo a mão dada. Do bolso esquerdo do paletó, um vintém. <Amigo!> O garçom lustrando os copos no balcão, acena com reverência modesta, enquanto se mantém ocupado. <Pode ficar com o troco.>

E aí?! Gostou do texto? Você também pode acessar a publicação original em: http://edinhodasletras.blogspot.com.br/2016/06/tango-sentenca-e-troco.html

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Um grande abraço,

Kiraly Garcia

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