O que uma música, um sábado de sol e seis senhoras bailarinas me ensinaram sobre Tango no Brasil

Tempo de leitura: 4 minutos

Olá!!

No fim de semana passado, a Karina e eu fomos apresentar um pedacinho do nosso trabalho no Tango a uma banca, como parte do processo para ter o Registro Profissional na Delegacia Regional de Trabalho, o “tal do DRT”, pelo Sinddança.

A gente temia que os integrantes da banca não conhecessem bem o que a gente dança, a nossa paixão… Então, no processo, enfatizamos por diversas vezes que a nossa área de atuação era Tango, mais especificamente Tango Salão (ou Social), que ainda é pouco difundido no Brasil.

Na manhã do dia em que passaríamos pela banca, um lindo sábado de sol, a Karina e eu conversamos para escolher uma música para dançar. Estávamos totalmente convictos de que, apesar de também dançar Tango Cenário (ou Tango Show), deveríamos deixar as coreografias de lado e escolher música e figurino que fizessem jus ao nosso comprometimento com o lado social do Tango.

E assim fizemos. Diante de uma banca composta por seis senhoras bailarinas, com muitíssima experiência de palco e de vida, bailamos um Fresedo lindo, suave, sóbrio, quizás solene: Buscándote.

Um temaço!! Inclusive, deixo um link aqui para a música, caso você tenha curiosidade ou simplesmente queira escutá-la mais uma vez. Vale a pena!

Mas, voltando ao nosso assunto, despois que dançamos, houveram poucas perguntas, e saímos de bem com a vida e com a nossa escolha. Mas a história não acaba aí…

Alguns minutos depois, enquanto caminhávamos rumo à porta de saída do local, uma surpresa inesperada! As juradas da banca, queriam conversar com a gente. Ao entrarmos de volta na sala, as juradas nos receberam com uma sugestão:

“Vocês poderiam escolher uma música um pouco mais animada, com mais dinâmica… como um Piazzolla…” – disse a senhora jurada.

E nos pusemos a explicar que trouxemos algo que represente melhor o que a gente trabalha dentro do Tango. Claro que sería muito mais fácil trazer uma coreografía forte, mas não é o que nós fazemos de melhor.

Somos saloneros, milongueros, e queríamos ser o mais verdadeiros e transparentes possível. É nisso que acreditamos e é para esse trabalho que estávamos pedindo o tal DRT… para compartilhar nossa paixão e nossa experiência de anos de estudo e vivência de Tango Salão.

Explicamos a elas que existe uma distinção muito clara entre o salão e o palco, que existem músicas para um e para outro, que estudamos isso por vários anos, moramos em Buenos Aires por três deles, somos campeões brasileiros de Tango Salão e, por isso, precisávamos trazer uma proposta que refletisse tudo isso…

“Ah tá, mas se vocês colocarem um Por Una Cabeza, vocês vão ver como o público vai vibrar muito mais!!” – exclamou uma das juradas.

Bem… Não nos restava outra opção que perguntar-lhes se queriam que dançássemos outra música, um pouco mais forte ou “animada”, dentro do repertório das milongas, como um D’Arienzo, um Biagi… Elas responderam que não precisava e que era só uma sugestão… Agradecemos a todas pela sugestão e saímos da sala.

As emoções eram conflitantes. Por um lado, sentimos que elas estavam genuinamente querendo ajudar, por outro lado ficamos um pouco decepcionados por não as havermos tocado.

“Quero impressionar às pessoas com a melodia, quero tocar seus corações, mas com delicadeza…” – Osvaldo Fresedo

Mas suas sugestões só nos deram uma clara confirmação de que havíamos feito a escolha correta. Ainda é uma realidade que muito pouca gente conhece o Tango no Brasil; Tango Salão, menos ainda! Se uma banca de entendidos em dança sugere algo para animar o público numa dança cujo fim maior é a comunicação entre o casal, o desfrutar da música, a integração social… é sinal de que devemos realmente tomar a responsabilidade de difundir (às vezes, até mesmo entre os mais entendidos) o caráter social, cultural e histórico do Tango, com toda a sua riqueza musical e o seu dançar “para dentro”, para o casal.

Em alguns momentos, temos que agir comercialmente, em outros, politicamente. Temos que ser coerente com aquilo que acreditamos e fazemos no dia-a-dia.

A propósito, na terça-feira, recebemos a confirmação: vamos receber o DRT como dançarinos. Obrigado senhoras da banca pela postura humilde de fazer sugestões, mas reconhecer como possível algo que está fora da sua zona de conforto.

Um grande abraço e até o próximo post,

Karina de Souza & Kiraly Garcia

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